O punk brasileiro quase perdeu uma de suas vozes mais afiadas. Em dezembro, Clemente Nascimento, guitarrista e vocalista do Inocentes e da Plebe Rude, enfrentou uma dissecção da aorta, condição cardíaca gravíssima que exigiu cirurgia imediata e quase um mês de internação.
Em conversa com Gastão Moreira, Clemente contou em detalhes o que viveu — do susto minutos antes de um show até o retorno gradual à música. Hoje, em casa e em recuperação, ele resume o momento com franqueza e bom humor rock’n’roll.

Imagem: Reprodução
Dor no peito, camarim vazio e o caos antes do show
O episódio aconteceu em Campo Grande, pouco antes de subir ao palco com a Plebe Rude. Clemente chegou ao camarim e percebeu algo muito errado:
“Entrei no camarim, tava só eu e o André. O Felipe Seabra e o Capute ainda não tinham chegado porque o voo foi cancelado. De repente, senti uma dor no peito que nunca tinha sentido. Uma dor absurda.”
A sensação era assustadora — e literal:
“Parecia que tava rasgando tudo por dentro. Uma bola, um nó, dilacerando.”
De suspeita de infarto à corrida contra o tempo
Como o evento era grande, havia ambulância no local. Clemente foi levado à UPA, onde os primeiros exames apontaram suspeita de infarto — diagnóstico comum, mas que não era o verdadeiro problema.
“Me deram remédio de infarto, mas era dissecção da aorta. Isso não espera. Se demora, já era.”
Depois de muita correria entre produtores e contratantes, surgiu uma vaga na Santa Casa de Campo Grande. Lá, a tomografia confirmou o pior — e o relógio zerou.
“O médico falou: ‘Mano, é dissecção da aorta. Mesa de cirurgia agora’.”
Cirurgia, UTI e estatística que assusta
Clemente não esconde a gravidade do quadro. Segundo ele, o cirurgião Rauni Panichi foi decisivo para salvar sua vida.
“Ele ligou pra minha filha e falou: ‘90% não chega nem na mesa de cirurgia, e 90% não sai da mesa’. Eu acordei na UTI, todo zoado.”
Foram 21 dias na UTI, com complicações como pancreatite, inchaços e outros problemas. Depois, mais duas semanas na enfermaria, até o corpo começar a responder.
Aorta substituída e pressão alta como vilã
A dissecção, explica Clemente, é causada principalmente pela pressão alta, que rompe a aorta e espalha sangue pelo corpo. O tratamento envolve próteses internas.
“Fiquei com corte no peito e na perna. O médico colocou uma prótese, tipo um caninho. Ele me mostrou e eu falei: ‘Então tô com um pedaço de plástico dentro de mim?’.”
Humor intacto, mesmo depois do inferno.
Volta à música, shows controlados e vida normalizando
A recuperação segue firme — e com guitarra por perto.
“Já tô tocando. Minha voz foi pro saco por causa da sonda, mas tô fazendo exercício. Vou ensaiar e voltar aos shows.”
O cardiologista liberou apresentações, com ajustes:
“No show da Plebe no Rio, vou cantar algumas músicas e em outras só tocar. Tem que dosar.”
SUS, bairro antigo e gratidão sem filtro
De volta ao bairro do Limão, em São Paulo, Clemente celebra o cotidiano simples — e faz questão de destacar um ponto:
“Sem sequelas, sem dívida. Foi tudo pelo SUS. E tem gente que reclama, né? Se fosse nos Estados Unidos…”
Ele já dirige, vai ao mercado, recebe amigos em casa e segue evitando exageros.
“Ainda não tô indo pra rolê, mas tô vivo, cercado de gente querida e com música pra fazer.”
No fim das contas, Clemente voltou do limite com cicatrizes, histórias e a mesma atitude de sempre: sobreviver, tocar e seguir em frente.


