Em janeiro de 1993, a pequena — e ainda pouco conhecida — id Software soltou um comunicado que parecia coisa de banda prometendo “o álbum mais pesado da história”.
A proposta era simples: demônios invadindo uma instalação científica, soldados tentando sobreviver ao inferno e violência em níveis absurdos.
O nome do projeto? Doom.
O detalhe curioso é que, naquele momento, o jogo praticamente nem existia direito ainda. Mas a confiança da equipe era gigantesca — e fazia sentido.

Imagem: Reprodução
Antes de Doom, veio o caos chamado Wolfenstein 3D
Um ano antes, a id Software já tinha bagunçado completamente a indústria com Wolfenstein 3D, considerado um dos pais do FPS moderno.
Enquanto outras empresas apostavam em mascotes coloridos e aventuras familiares, a id mergulhava jogadores em corredores violentos, velocidade absurda e combate brutal.
Por trás disso existia um grupo de programadores jovens, barulhentos e completamente apaixonados por heavy metal.
O escritório da empresa, no Texas, funcionava mais como uma república universitária movida a pizza fria, noites sem dormir e riffs no último volume do que como um estúdio tradicional.
“Éramos todos metaleiros de carteirinha”, relembrou John Romero à Metal Hammer.
Doom nasceu para parecer capa de disco de thrash metal
Depois de Wolfenstein, a missão era criar algo ainda mais extremo.
A ideia da equipe era fazer um game que parecesse literalmente uma capa de disco de metal ganhando vida. O resultado foi um universo tomado por demônios, armas gigantes, violência exagerada e visual infernal.
Tudo respirava referências ao thrash metal e ao heavy metal dos anos 80 e 90.
Quando Doom foi lançado oficialmente em dezembro de 1993, virou fenômeno instantâneo. Em apenas um dia, vendeu o equivalente ao primeiro mês inteiro de vendas de Wolfenstein 3D.
E honestamente? O jogo parecia mesmo um álbum do Slayer ou do Pantera transformado em videogame.
A trilha sonora precisava ser metal — e ponto final
Para a equipe da id Software, nunca existiu debate sobre qual estilo musical deveria acompanhar Doom.
“Nunca pensamos: ‘Que tipo de música devemos usar?’. Era óbvio que seria metal”, explicou Romero.
O problema é que o compositor Bobby Prince era apaixonado por jazz e praticamente não entendia nada de heavy metal.
A solução? Transformar o cara em aluno intensivo de pancadaria sonora.
Os desenvolvedores entregaram discos de bandas como Slayer, Pantera e Alice in Chains para que ele absorvesse aquele caos musical e levasse tudo para os arquivos MIDI da época.
O resultado virou uma das trilhas mais icônicas da história dos games.
Doom apresentou o metal para uma geração inteira
Mesmo limitada tecnologicamente pelos computadores dos anos 90, a trilha carregava riffs inspirados em thrash metal e energia suficiente para parecer um mosh pit digital.
Para muita gente, Doom acabou funcionando como porta de entrada para o metal pesado.
Davyd Winter-Bates, da Bury Tomorrow, afirmou que boa parte do amor dele pelo thrash metal nasceu justamente jogando Doom ainda criança.
“Eu ouvia aqueles riffs em 8-bits e pensava: ‘Isso claramente não é música pop’.”
Até GWAR, Rammstein e Trent Reznor entraram no culto de Doom
A influência do jogo rapidamente saiu dos videogames e invadiu o próprio universo do metal.
Segundo Romero, a banda GWAR era completamente obcecada pelo game, enquanto o Rammstein também teria absorvido muito da estética agressiva criada por Doom.
Outro fã assumido era Trent Reznor, da Nine Inch Nails.
A paixão foi tanta que Reznor acabou colaborando diretamente com a id Software na trilha de Quake, lançado em 1996.
E convenhamos: várias músicas clássicas de Doom parecem mesmo ter saído de algum laboratório industrial do próprio Reznor.
Reboot de 2016 trouxe Doom de volta ainda mais brutal
Depois de anos entre altos, baixos e adaptações para cinema que muita gente prefere fingir que nunca existiram, Doom retornou em 2016 com um reboot extremamente violento e acelerado.
A nova versão apostou em combate frenético, sangue para todos os lados e uma trilha sonora brutal assinada por Mick Gordon.
Curiosamente, Gordon revelou que uma das primeiras exigências da equipe era evitar que a música soasse “metal demais”.
Spoiler: deu muito errado.
O compositor começou a adicionar guitarras cada vez mais pesadas até criar uma mistura absurda de metal industrial, djent e música eletrônica extrema.
“Rip and Tear” virou hino gamer-metal
Faixas como Rip and Tear e The Only Thing They Fear Is You viraram praticamente hinos modernos dos videogames.
O impacto foi tão grande que músicos como Misha Mansoor, da Periphery, afirmam que Doom ajudou a popularizar estilos como djent e metal técnico para públicos que talvez nunca tivessem contato com isso.
Mick Gordon ainda passou a colaborar com bandas como Bring Me the Horizon, Architects e Motionless in White.
Mais de 30 anos depois, Doom continua falando a língua do metal
Três décadas depois, Doom segue sendo uma das maiores provas de que videogames e heavy metal sempre funcionaram como irmãos separados na maternidade da cultura pop.
Ambos vivem de exagero, velocidade, riffs absurdos, adrenalina e caos absoluto.
E sinceramente? Talvez nenhum outro jogo tenha entendido tão bem a energia de um show de metal quanto Doom.



