Paul McCartney voltou a falar sobre um dos capítulos mais importantes — e turbulentos — da história do rock. Durante uma conversa em Los Angeles sobre o documentário Paul McCartney: Man on the Run, o músico relembrou a relação com John Lennon, os conflitos que ajudaram a colocar um ponto final nos Beatles, o nascimento do Wings e até os problemas pessoais que enfrentou depois do fim da banda.
O documentário é dirigido pelo vencedor do Oscar Morgan Neville, de A Um Passo do Estrelato, e acompanha a trajetória de McCartney depois da separação dos Beatles.
Após uma exibição no Teatro Ted Mann do Museu da Academia, em Los Angeles, o ex-Beatle conversou com Neville e com o ator e diretor Judd Apatow, de Bem-Vindo aos 40, sobre carreira, vida pessoal e algumas das histórias que ajudaram a construir sua trajetória.
O filme acompanha o período que vai do fim dos Beatles, em 1969, passa pela criação do Wings em 1971 e chega ao encerramento da banda, em 1981, pouco depois do assassinato de Lennon.
E McCartney não economizou nas lembranças.

Imagem: David Redfern/Redferns
“Eu sempre amei John Lennon”
A história entre Paul McCartney e John Lennon começou muito antes de os dois dominarem o mundo.
McCartney entrou para os Quarrymen, banda precursora dos Beatles, em Liverpool, em 1957, quando tinha apenas 15 anos. Lennon tinha cerca de 16.
Décadas depois, apesar de todas as brigas e divergências entre os dois, Paul afirmou que o carinho por Lennon nunca desapareceu.
“Não importava — e de fato não importava — o que ele dizia ou fazia, porque eu o conhecia desde os 15 anos; ele era aquele cara meio doido que eu conhecia, e eu realmente o admirava”, afirmou.
McCartney também relembrou a personalidade de Lennon quando os dois ainda eram adolescentes.
Segundo Paul, John era aquele tipo de garoto espirituoso, inteligente e até um pouco cruel, características que acabavam despertando admiração.
“Então, eu sempre achei o John muito legal, e ainda acho.”
Mas McCartney também explicou que parte da personalidade complicada de Lennon poderia estar ligada aos acontecimentos traumáticos de sua infância.
O pai de John teria deixado a família quando ele tinha aproximadamente três anos e só voltou a ter contato com o filho depois que os Beatles ficaram famosos. A mãe de Lennon, Julia, era extremamente importante para ele — e também para McCartney.
Julia morreu atropelada em frente à casa quando John ainda era jovem.
“Então ele teve que lidar com tudo isso, sabe, e por isso ele tinha muita angústia”, explicou Paul.
Ou seja: por trás do sujeito que ajudou a revolucionar o rock havia também uma história pessoal bastante pesada.
A treta com Allen Klein ajudou a implodir os Beatles
Se existia uma receita para transformar uma das maiores bandas do planeta em uma reunião de condomínio particularmente complicada, Allen Klein aparentemente tinha alguns dos ingredientes.
Depois da morte de Brian Epstein, empresário dos Beatles, Klein assumiu o controle dos negócios do grupo em 1969.
McCartney nunca confiou no empresário.
“[Ele] basicamente estava roubando dos Beatles, e eu era o único que pensava isso. Os outros caras pensavam: ‘Não, nós o adoramos’”, relembrou.
John Lennon foi quem defendeu a contratação de Klein, enquanto George Harrison e Ringo Starr também apoiaram a decisão.
Paul explicou que Klein tinha uma maneira bastante eficiente de conquistar os músicos: perguntar o que eles queriam e oferecer exatamente aquilo.
Judd Apatow resumiu a situação durante a conversa, e McCartney respondeu com uma lembrança cheia de sarcasmo sobre as reuniões.
“O que vocês querem, um milhão de dólares?”
“Ah, sim.”
“Ok, pode deixar.”
Para McCartney, o problema era muito maior do que uma simples divergência de opinião.
Ele afirmou que Klein prometeu diversas coisas que não cumpriu e que, enquanto os demais integrantes confiavam no empresário, Paul acreditava estar diante de um vigarista.
“Só que era eu contra os outros caras, e isso era o pior, sabe?”, contou.
Paul processou os próprios Beatles
O conflito chegou a um ponto em que McCartney processou os outros integrantes dos Beatles em 1970.
A intenção era dissolver legalmente a parceria da banda e proteger sua participação financeira dos negócios administrados por Klein.
Paul reconheceu que sabia que a decisão poderia fazer com que o mundo se voltasse contra ele.
“O mundo vai se voltar contra mim, em primeiro lugar, e eu vou me voltar contra mim mesmo, e não é uma boa ideia. Mas, no final, esse era o único jeito, então eu tive que fazer isso”, relembrou.
A amizade e a parceria musical que tinham produzido alguns dos maiores discos da história haviam chegado a um ponto em que até resolver dinheiro parecia missão de nível impossível.
Começar sozinho foi assustador
Depois do fim dos Beatles, McCartney precisou descobrir como seguir em frente sem a banda que havia definido praticamente toda a sua vida adulta.
Seu primeiro álbum solo, McCartney, saiu em abril de 1970. No trabalho, Paul compôs as músicas e tocou praticamente todos os instrumentos sozinho em casa, contando com Linda McCartney nos vocais.
A experiência, porém, não foi exatamente tranquila.
“Acho que ficar sozinho foi muito assustador, porque eu sempre tive a união do grupo”, contou.
O músico também decidiu que não queria simplesmente criar uma espécie de “Beatles cover” com novos músicos.
Ele chegou a ouvir produtores sugerirem que voltasse a tocar músicas dos Beatles, incluindo “Yesterday”.
A resposta de Paul era simples:
“Não, não vou fazer isso.”
O desafio era justamente encontrar uma nova identidade.
E foi aí que surgiu o Wings.
Wings nasceu em meio ao caos
O Wings foi formado em agosto de 1971, depois dos álbuns McCartney, de 1970, e Ram, de 1971.
A banda reuniu Paul e Linda McCartney com Denny Laine, Denny Seiwell e Henry McCullough.
O grupo representava uma nova etapa para Paul, mas também era uma tentativa de descobrir como seria sua vida musical depois do fenômeno Beatles.
O problema? A comparação era inevitável.
E provavelmente não existia pressão maior para uma banda nova do que ser liderada por um dos caras que acabara de sair dos Beatles.
McCartney admite período difícil para a saúde mental
Paul também falou sobre o impacto emocional provocado pelo fim dos Beatles.
“É tipo, o que você faz depois dos Beatles?”, questionou.
Segundo ele, a banda havia sido seu trabalho durante praticamente toda a vida e, de repente, aquele emprego simplesmente desapareceu.
Judd Apatow descreveu Man on the Run como um filme sobre “um leve colapso nervoso”.
McCartney concordou que o período foi complicado.
“Você tem um ótimo emprego, tudo está indo muito bem, e de repente você não tem mais esse ótimo emprego e as coisas não vão tão bem”, explicou.
O músico também contou que passou a beber mais durante aquela fase.
“Eu estava na Escócia sozinho, com uma pequena família recém-formada. Ninguém ia me repreender por beber demais, então eu pensei: ‘Eba, vamos lá. Vamos nessa.’”
Segundo McCartney, a situação deixou de ser divertida quando ele percebeu que precisava mudar. O nascimento dos filhos também foi importante nesse processo.
Paul e John protagonizaram uma das primeiras “tretas” musicais do rock
Se hoje artistas trocam indiretas em músicas, entrevistas e redes sociais, Paul McCartney e John Lennon já estavam fazendo isso muito antes de existir internet.
Durante o início das carreiras solo, os dois trocaram críticas públicas e também provocaram um ao outro por meio de suas músicas.
Questionado sobre o motivo das farpas, Paul afirmou que talvez Lennon esperasse algo diferente dele.
“Esperava algo diferente, e eu não estava fazendo isso. Eu só fazia coisas ‘malucas’”, explicou, referindo-se principalmente aos trabalhos do Wings.
McCartney afirmou que nunca soube exatamente o que motivava todas as críticas de Lennon, mas a relação entre os dois melhorou com o passar dos anos.
Um dos sinais dessa reaproximação foi o elogio de Lennon à música “Coming Up”, pouco antes de sua morte, em 1980.
Judd Apatow aproveitou para resumir a situação de uma maneira bem-humorada:
“Vocês protagonizaram a primeira treta pública musical!”
Segundo o ator, os dois não recebem o devido crédito por terem ajudado a inaugurar uma tradição que o rock conhece muito bem: resolver sentimentos complicados por meio de músicas e indiretas públicas.
“Eu amava o John, amo até hoje e sempre amarei”
No fim das contas, entre brigas, negócios, diferenças criativas e décadas de história, a relação entre Paul McCartney e John Lennon continua marcada por uma amizade que começou quando os dois ainda eram adolescentes.
O próprio Paul resumiu esse sentimento durante a conversa ao afirmar que, apesar de tudo o que aconteceu, sempre amará John Lennon.
E talvez essa seja uma das partes mais interessantes da história dos Beatles: por trás das discussões, dos processos e das músicas que viraram clássicos, existiam dois garotos de Liverpool que simplesmente gostavam de tocar juntos.
O documentário Paul McCartney: Man on the Run revisita justamente essa fase turbulenta da carreira do músico. Depois da exibição, Paul ainda fez questão de elogiar o trabalho de Morgan Neville:
“Eu realmente adorei. Você fez um ótimo filme.”




