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Como uma viagem a Londres ajudou Bob Dylan a criar “Girl From the North Country”

A história de Bob Dylan é recheada de encontros improváveis, viagens que mudaram rumos e músicas que parecem ter surgido do nada — embora, quase sempre, exista uma boa história escondida por trás delas.

É justamente isso que o historiador de Princeton e colaborador de longa data da Rolling Stone, Sean Wilentz, explora no livro Bob Dylan: Through the Open Window (1956-1963).

A obra acompanha os primeiros anos de Dylan, mostrando como o músico transformou rascunhos, referências, encontros e experiências em algumas das canções que ajudariam a definir sua carreira. Ao mesmo tempo, o livro mergulha no universo boêmio do Greenwich Village, em Nova York, durante as décadas de 1950 e 1960.

Wilentz conhece esse ambiente de perto. Ele próprio cresceu naquele universo e utiliza seu olhar de historiador para reconstruir a cena musical e cultural que ajudou a formar Dylan.

O autor também teve acesso a materiais exclusivos relacionados à caixa Bootleg Series, que coproduziu, incluindo gravações raras, versões alternativas e performances que registram uma época que já ficou para trás.

E entre todas as histórias desse período existe uma viagem particularmente importante: a ida de Bob Dylan a Londres no final de 1962.

O que começou como uma oportunidade profissional acabou colocando o músico em contato com uma cena cultural completamente diferente. No caminho, surgiram “Masters of War”, uma misteriosa mulher que inspiraria “Liverpool Gal” e, indiretamente, elementos que ajudariam a formar “Girl From the North Country”.

IBAGEM BOB DYLAN

Imagem: Wikimedia Commons

Dylan foi para Londres pensando em diversão

No fim de 1962, Bob Dylan já havia gravado mais de 20 músicas novas desde março, incluindo “A Hard Rain’s A-Gonna Fall”.

Com material suficiente para acreditar que seu segundo álbum estava praticamente pronto — o futuro The Freewheelin’ Bob Dylan —, o músico poderia ter voltado para Minnesota para passar as festas de fim de ano.

Mas seu empresário, Albert Grossman, tinha outros planos.

Em meados de dezembro, Dylan embarcou para Londres para participar de The Madhouse on Castle Street, uma produção original da BBC que seria exibida em 1963.

A ideia era mantê-lo na Inglaterra até o ano novo.

Dylan nunca tinha experiência como ator. Mas, naquele momento, aparentemente isso era apenas um detalhe.

Sua namorada, Suze Rotolo, estava na Itália desde junho estudando arte e ainda não havia retornado, muito além do período que Dylan imaginava. Além de uma viagem ao Canadá, aquela seria também uma das primeiras experiências internacionais do músico.

Grossman enxergava a oportunidade como uma forma de Dylan ampliar seus horizontes — e, obviamente, aumentar o potencial de ganhos dos dois.

A viagem estava paga e Dylan ainda receberia 525 libras da BBC.

Em outras palavras: passagem paga, dinheiro no bolso e uma cidade nova para conhecer.

Dylan só precisava aparecer.

O problema é que Dylan não queria ser ator

The Madhouse on Castle Street não era exatamente uma obra-prima.

E Dylan, apesar de possuir um talento natural para a comédia, aparentemente também não estava prestes a ganhar um Oscar.

Assim que chegou à BBC e conheceu o pessoal envolvido na produção, ele deixou claro que não queria fazer praticamente nada além de cantar.

O diretor e o dramaturgo perceberam rapidamente que colocar Dylan no papel principal de Lenny, um personagem misterioso e recluso, talvez não fosse a melhor ideia.

Resultado: o músico foi retirado do papel principal e transformado em Bobby, um menestrel que cantaria algumas músicas e teria apenas uma fala.

Além de interpretar “Blowin’ in the Wind” e algumas canções tradicionais, Dylan também trabalhou em uma composição chamada “The Ballad of the Gliding Swan”.

Ele criou a melodia e acrescentou versos a uma letra folk mais grotesca escrita por Evan Jones, autor da peça que posteriormente teria uma carreira bem-sucedida como roteirista.

Dylan tentou melhorar a música principalmente suavizando os trechos mais macabros da composição original.

A gravação incompleta que sobreviveu acabou se tornando uma espécie de cápsula do tempo de uma fase extremamente importante na formação artística do músico.

Londres estava congelando, mas Dylan estava ligado na cena musical

A cidade enfrentava uma nevasca incomum e temperaturas extremamente baixas, mas isso não impediu Dylan de sair explorando.

Desde o começo, ele pretendia mergulhar na cena folk londrina.

Foi exatamente o que fez.

Dylan passou por pubs e clubes de música folk e teve contato intenso com as antigas baladas anglo-celtas.

Para ele, aquilo era uma aula acelerada de história musical.

Anthea Joseph, responsável pelas sessões de terça-feira no Troubadour Club, lembrou posteriormente que Dylan absorveu uma enorme quantidade de referências daquela cultura.

Segundo ela, tratava-se de algo muito diferente do que o músico conhecia em Nova York. Em Londres, era possível encontrar canções com mais de mil anos de história.

E aquilo aparentemente mexeu bastante com Dylan.

Martin Carthy entra na história

Os círculos folk londrinos eram conhecidos por serem mais fechados e elitistas do que os de Nova York.

E os americanos não necessariamente eram recebidos com tapete vermelho.

A cena também tinha uma forte ligação política, especialmente com setores da esquerda britânica que associavam a tradição folk a ideias de identidade e pureza proletária.

Mas em meio a esse ambiente, Dylan encontrou alguém com quem rapidamente criou uma amizade: Martin Carthy.

Cantor e guitarrista nascido em Hertfordshire, Carthy tinha praticamente a mesma idade de Dylan e estava se tornando uma figura importante da música folk britânica.

Dylan ficou particularmente impressionado com as interpretações de Carthy para “Scarborough Fair” e “Lord Franklin”.

A primeira era uma variação de uma antiga balada tradicional, enquanto a segunda utilizava uma melodia de origem irlandesa.

Dylan aprendeu as músicas e guardou aquelas referências.

E aqui começa a aparecer uma peça fundamental do quebra-cabeça.

De repente, Dylan escreve “Masters of War”

Enquanto mergulhava na música tradicional inglesa, Dylan também acompanhava as notícias.

Ao ler nos jornais londrinos sobre as negociações entre Estados Unidos e Reino Unido envolvendo armamentos, o músico escreveu uma das músicas políticas mais agressivas de toda a sua carreira: “Masters of War”.

A canção utilizava a melodia de “Nottamun Town”, uma música tradicional coletada no leste do Kentucky e associada ao trabalho de Jean Ritchie.

Mas Dylan não estava interessado apenas na tradição.

Sua mira estava apontada para os fabricantes e magnatas da indústria bélica, acusados por ele de lucrar com conflitos enquanto o mundo caminhava perigosamente próximo de uma guerra nuclear.

A música terminava com uma espécie de maldição contra os chamados mercadores da morte.

Para os músicos folk ingleses de esquerda, que naquele período também eram influenciados por nomes como Bertrand Russell e pelo movimento da Campanha pelo Desarmamento Nuclear, a chegada daquela música foi praticamente um evento.

Quando Dylan apresentou “Masters of War” e “Hollis Brown” no clube Singers, a reação foi extremamente positiva.

O garoto americano tinha acabado de chegar e já estava botando fogo no repertório.

Mas Londres tinha muito mais do que música folk

Ao mesmo tempo em que mergulhava no universo dos pubs, Dylan também começou a experimentar uma Londres muito diferente.

Foi apresentado a esse outro lado da cidade pelo diretor de The Madhouse on Castle Street, Philip Saville, e pela amante dele, a pintora Pauline Boty.

Saville era considerado um diretor inovador da televisão britânica e já havia trabalhado com nomes importantes, incluindo o dramaturgo Harold Pinter.

Boty, por sua vez, era uma artista que estava começando a chamar atenção no cenário londrino.

Aos 23 anos, ela fazia parte de um círculo emergente de artistas pop britânicos que incluía David Hockney, Derek Boshier, David Bailey e Peter Blake.

Conhecida por sua beleza — alguns a chamavam de “Bardot de Wimbledon” —, Boty também se dedicava à poesia, dança, teatro e cinema.

Era uma mulher extremamente culta, interessada em autores como Jean Genet, Simone de Beauvoir, James Joyce e Marcel Proust.

Nas telas, misturava simbolismo erótico feminino com imagens de celebridades como Jean-Paul Belmondo e Marilyn Monroe.

Seu trabalho ganhou ainda mais visibilidade graças ao diretor Ken Russell, que a incluiu entre os quatro artistas pop britânicos retratados no documentário da BBC Pop Goes the Easel, de 1962.

Em resumo: se Dylan achava que Londres seria apenas música folk e pubs, a cidade tinha decidido mostrar que o rolê era bem maior.

Dylan chega ao apartamento de uma pintora por acaso

Boty e Saville foram buscar Dylan no aeroporto quando ele chegou a Londres.

Só havia um pequeno problema: os dois tinham planos para aquela noite — e o americano não estava incluído.

Então Dylan acabou sendo levado ao apartamento-estúdio de Jane Percival, amiga próxima de Boty e também pintora, em Notting Hill.

Percival recebeu a visita inesperada com uma missão inusitada.

Boty teria explicado que eles precisavam ir a uma recepção e perguntado se ela poderia cuidar daquele músico americano naquela noite.

E Dylan, violão em mãos, acabou ficando.

Por coincidência, Percival estava organizando um jantar para mais de uma dúzia de pessoas.

Dylan simplesmente se acomodou e começou a tocar.

Ele passou parte da noite no apartamento de outra pintora, Joanna Carrington, e voltou na manhã seguinte para agradecer a Percival e se despedir.

Mas aquela não seria a última vez que Dylan cruzaria com Saville e Boty.

O trio circulava pela Londres mais moderna

Durante as semanas seguintes, Dylan, Saville e Boty passaram bastante tempo juntos.

Dylan ficou hospedado em diferentes lugares, incluindo os hotéis Mayfair e Cumberland. Também passou um período em um quarto vazio na casa de Saville e, segundo alguns relatos, chegou a ficar no apartamento de um cômodo de Boty.

As memórias de Saville mostram os três circulando pelos bairros mais boêmios de Londres.

Entre eles estava a região da Carnaby Street, que começava a se transformar em um dos símbolos da moda masculina extravagante.

Para Dylan, aquele ambiente tinha pouco em comum com os pubs folk de Greenwich Village.

Por outro lado, lembrava muito mais a nova cena artística de Nova York que começava a surgir em torno de Andy Warhol e que posteriormente ganharia um endereço quase mítico: a Factory.

Uma festa tão estranha que parece roteiro de filme

Meses depois, em uma visita a Minneapolis, Dylan contou ao amigo Tony Glover algumas histórias sobre sua passagem por Londres.

Uma delas parece ter sido inspirada em uma festa na casa de Jane Percival.

Segundo a narrativa, Dylan entrou em uma sala com cerca de 15 pessoas, todas usando camisas de manga curta apesar do frio intenso.

Alguém decidiu colocar um disco dos Everly Brothers e todos começaram a dançar.

Até aí, normal.

O detalhe é que, segundo Dylan, todos estavam dançando o twist sobre uma perna só.

Ele preferiu ficar sentado perto da lareira.

Depois de aproximadamente uma hora, pediram que ele tocasse.

Dylan apresentou músicas como “Hollis Brown”, “A Hard Rain’s A-Gonna Fall” e “With God on Your Side”.

A reação?

Silêncio absoluto.

Os convidados ficaram completamente paralisados.

E então aconteceu algo ainda mais estranho.

Uma mulher se aproximou de Dylan e perguntou se ele gostaria de conhecer suas pinturas.

Ele aceitou.

Só que o caminho até o local parecia uma espécie de fase secreta de videogame.

Segundo a história contada pelo músico, eles atravessaram quartos, banheiros, escadas, sacadas, corredores, sótãos e até passaram por uma corda.

Tudo isso enquanto Dylan perguntava se ela realmente sabia onde estava indo.

Ela garantia que sim.

Quando finalmente chegaram ao destino, a mulher acendeu as luzes e mostrou suas pinturas.

Dylan achou tudo horrível.

Ele mesmo admitia não entender muito de artes visuais, mas decidiu que aquela experiência já tinha passado do limite.

Foi embora e concluiu que aquelas pessoas eram simplesmente “de outra dimensão”.

“Liverpool Gal”: a garota misteriosa aparece

Mas talvez aquela experiência tenha tido um lado muito mais bonito.

Pouco antes de contar a história a Glover, Dylan havia gravado uma música no gravador do amigo.

Provavelmente composta pouco antes ou pouco depois de voltar aos Estados Unidos, “Liverpool Gal” só seria lançada oficialmente em 2025, no Bootleg Series Volume 18: Bob Dylan – Through the Open Window.

A música utiliza a melodia de “The Lily of the West”, embora também possa ter recebido influência de “The Girl I Left Behind”.

Segundo o próprio Dylan, a canção foi inspirada por uma mulher que ele conheceu em Londres.

Ele teria contado aos amigos que ela era uma das mulheres mais bonitas que já tinha visto.

Na música, ela aparece às margens do rio Tâmisa, interrompe os pensamentos do cantor sobre sua casa e o leva para seu apartamento.

Ela diz ser de Liverpool, informação que pode ter ajudado Dylan a construir as rimas e talvez também tenha relação com a tradicional “The Leaving of Liverpool”, que ele posteriormente transformaria em outra composição.

Os dois passam horas conversando perto de uma lareira sobre o mundo exterior e sua crueldade.

Ela o aceita exatamente como ele é, inclusive seus modos considerados estranhos.

Na manhã seguinte, os dois acordam.

Ele precisa ir embora.

O momento é constrangedor, mas ela sorri de uma maneira que transmite a sensação de que havia entendido tudo.

Dylan sai, olha para a janela dela e segue seu caminho.

Ele provavelmente esqueceria Londres e várias das pessoas que conheceu por lá.

Mas não esqueceria aquela garota.

A “Liverpool Gal” poderia ser Pauline Boty?

A identidade da mulher sempre provocou especulações.

Muito antes do lançamento da música em 2025, rascunhos diferentes da letra já circulavam entre estudiosos de Bob Dylan, graças aos chamados manuscritos de Margolis e Moss.

Naturalmente, os fãs começaram a tentar descobrir quem seria a misteriosa “Liverpool Gal”.

Um dos nomes mais citados foi justamente Pauline Boty.

A hipótese faz sentido.

Boty estava em Londres durante a passagem de Dylan, tinha um apartamento na cidade e fazia parte daquele universo artístico que fascinou o músico.

Além disso, Dylan teria contado a amigos que havia uma mulher real por trás da canção.

Mas existe um problema básico nessa investigação:

ninguém além de Dylan sabe exatamente quanto da história aconteceu de verdade.

Pode ter sido uma experiência real. Pode ter sido uma combinação de várias pessoas. Ou pode ter sido Dylan fazendo o que fazia melhor: transformar realidade, memória e imaginação em música.

“Girl From the North Country” nasceu de outro tipo de saudade

Independentemente da identidade da mulher, “Liverpool Gal” ajuda a entender o impacto daquela temporada na obra inicial de Dylan.

Antes disso, o músico já havia escrito algumas de suas grandes canções de amor.

Mas muitas delas falavam de relacionamentos interrompidos, distância, separação ou saudade.

É o caso de “Don’t Think Twice, It’s Alright”, “Tomorrow Is a Long Time”, “Girl From the North Country” e “Boots of Spanish Leather”.

Pouco depois, viria também “One Too Many Mornings”.

“Liverpool Gal” seguia uma direção diferente.

Em vez de narrar um amor antigo ou uma relação que estava desmoronando, a música apresentava uma intimidade rápida, inesperada e genuína.

Não havia a necessidade de transformar ninguém.

A mulher simplesmente aceitava Dylan como ele era.

E, ao mesmo tempo, parecia conduzir o ritmo daquele encontro.

Londres ensinou Dylan sobre liberdade, amor e música

Alguns versos da música sugerem que aquele encontro também funcionou como uma espécie de descoberta emocional e sexual para o cantor.

A ideia de caminhar, vagar e conhecer o mundo contrasta com a percepção de que ele ainda sabia pouco sobre o amor.

Ao final, porém, Dylan parece sair daquele encontro carregando algo muito maior.

Ele havia encontrado uma experiência que fugia das expectativas tradicionais de relacionamento.

Havia também uma troca de ideias, horas de conversa e uma sensação de liberdade.

Tudo isso teria deixado uma marca.

“Liverpool Gal” também chama atenção por ser uma música extremamente concreta.

Existe um lugar específico.

Existem duas pessoas conversando.

A chuva cai.

A noite passa.

A manhã chega.

Em outras composições de Dylan daquele período, as imagens são muito mais abstratas e metafóricas.

Talvez essa diferença tenha acontecido justamente porque ele queria registrar uma experiência particularmente marcante de sua passagem por Londres.

Da Inglaterra para a Itália — e mais duas músicas fundamentais

Cinco dias depois do começo do novo ano, Dylan terminou seu trabalho em The Madhouse on Castle Street e deixou a Inglaterra.

Seu próximo destino foi a Itália.

Possivelmente, ele estava tentando encontrar Suze Rotolo, que, sem que ele soubesse, já havia retornado para Nova York.

Também se juntou a Odetta e ao empresário Albert Grossman em Roma, onde a cantora estava se apresentando.

Dylan ficou cerca de uma semana no país.

Aproveitou o ritmo mais tranquilo, a comida, o vinho barato e, claro, continuou trabalhando.

Foi nesse período que desenvolveu duas músicas importantes sobre amores perdidos.

As duas tinham melodias influenciadas pela versão de Martin Carthy para “Scarborough Fair”.

A longa ausência de Suze ajudou a inspirar “Boots of Spanish Leather”, ainda não completamente finalizada naquele momento.

Já “Girl From the North Country” poderia ter sido inspirada por diferentes mulheres — ou simplesmente não representar uma pessoa específica.

Dylan ainda voltou a Londres antes de ir embora

Antes de retornar definitivamente para Nova York, Dylan fez uma última parada em Londres.

E a despedida foi, digamos, bastante movimentada.

Ele se encontrou com os amigos Richard Fariña e Eric Von Schmidt para algumas gravações de baixo orçamento no porão da loja de discos Dobell’s, na Charing Cross Road.

Os três estavam vivendo momentos pessoais complicados.

O casamento de Fariña com a cantora Carolyn Hester estava em crise.

O relacionamento de Von Schmidt com a esposa, Helen, também enfrentava problemas.

E Dylan continuava sem Suze.

A solução dos rapazes para enfrentar a situação envolvia bastante maconha, uísque barato e cerveja.

Depois das gravações, que Von Schmidt classificaria como uma das maiores “bagunças amigáveis” de sua carreira, o trio partiu para os clubes do Soho.

A noite terminou no Troubadour, em Earls Court.

Eles interromperam apresentações programadas e passaram a cantar músicas obscenas até o fechamento.

Segundo os relatos, Dylan estava tão bêbado que o corpulento Von Schmidt precisou carregá-lo de volta para onde estava hospedado.

Rockstar sendo Rockstar, basicamente.

Martin Carthy ouviu “Girl From the North Country”

Mesmo nos últimos dias em Londres, Dylan fez questão de reencontrar Martin Carthy.

Carthy contou que Dylan voltou para procurá-lo e disse que queria cantar uma música.

A melodia era familiar.

A letra também carregava elementos que Carthy reconhecia.

Mas, desta vez, a história falava de uma garota do norte da Inglaterra, e não especificamente da Feira de Scarborough.

Dylan começou a tocar.

Chegou ao meio do primeiro verso e aparentemente percebeu que ainda não dominava completamente a música.

Segundo Carthy, ele estava simplesmente empolgado demais.

A ligação com “Scarborough Fair” era evidente.

A música era uma das marcas registradas de Carthy, que posteriormente decidiu tirá-la do próprio repertório por considerar que havia “muita bagagem” em torno dela.

Mas ele não teve problema com o fato de Dylan ter utilizado aquela inspiração.

Carthy reconhecia que tinha muito mais música para oferecer e acabaria se tornando uma lenda do folk britânico por mérito próprio, inclusive recebendo uma Ordem do Império Britânico.

E também compreendeu imediatamente o que Dylan havia feito.

O americano pegou elementos que havia descoberto praticamente do zero em Londres e os transformou em algo novo.

A viagem que ajudou a mudar Bob Dylan

A passagem de Bob Dylan por Londres durou poucas semanas, mas deixou uma quantidade impressionante de marcas em sua obra.

Ele entrou em contato com uma tradição folk muito mais antiga, conheceu músicos que ampliaram seu repertório, mergulhou em uma cena artística completamente diferente da de Nova York e encontrou pessoas que poderiam ter servido de inspiração para algumas de suas canções.

No processo, escreveu “Masters of War”, absorveu referências que ajudariam a formar “Girl From the North Country” e registrou uma história misteriosa em “Liverpool Gal”.

Se Dylan ficou intrigado com a estranheza da nascente Swinging London, também descobriu ali uma liberdade artística que, de certa maneira, era ainda maior do que aquela encontrada no Greenwich Village.

Parte dessa energia parecia estar presente no universo de Pauline Boty e na nova arte pop britânica.

Se ela foi ou não a verdadeira musa de “Liverpool Gal”, provavelmente continuará sendo assunto para os fãs.

Mas talvez isso nem seja o mais importante.

Porque Dylan fez o que sabia fazer melhor: pegou pessoas, lugares, músicas antigas, experiências estranhas, paixões, despedidas e pedaços de histórias e jogou tudo dentro de uma canção.

O resultado foi uma das marcas mais fortes de sua juventude artística.

E, no caso de “Girl From the North Country”, tudo começou com uma viagem para Londres, alguns pubs, uma dose generosa de música folk e um músico americano que parecia estar sempre pronto para transformar qualquer experiência em rock, poesia e história.

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