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Kurt Cobain: “John Lennon era meu Beatle favorito… Paul McCartney me dava vergonha”

Se existe uma coisa que Kurt Cobain nunca pareceu muito interessado em fazer era medir palavras.

Em 1989, quando o Nirvana ainda estava começando a colocar as garras para fora, o vocalista deu uma entrevista ao The Daily durante a divulgação de Bleach, álbum de estreia da banda.

E o assunto era Beatles.

Cobain deixou claro que gostava do grupo e tinha uma admiração enorme por John Lennon. Já quando o papo chegava em Paul McCartney, a situação mudava completamente de tom.

Para resumir: Lennon era ídolo. McCartney? Bom… melhor deixar o próprio Kurt explicar.

IBAGEM KURT COBAINA

Imagem: Getty Images

Lennon era o favorito. McCartney, nem tanto

Anos depois, já com o Nirvana transformado em um dos maiores fenômenos do rock após o lançamento de Nevermind, Cobain voltou a falar sobre os Beatles em entrevista à Rolling Stone.

O músico explicou que se identificava mais com a personalidade considerada problemática e inquieta de John Lennon do que com a imagem mais polida, comercial e organizada associada a McCartney.

“John Lennon era com certeza meu Beatle preferido, disparado. Eu não sei quem compôs que partes de quais músicas dos Beatles, mas McCartney me dá vergonha alheia. Lennon era obviamente perturbado [risos]. Então eu conseguia me identificar com isso.”

Ou seja: o critério de Cobain para escolher seu Beatle favorito definitivamente não passava por “quem parecia mais comportado”.

Os Beatles ajudaram a construir o som do Nirvana

Apesar da declaração nada amigável sobre Paul McCartney, a influência dos Beatles sobre Kurt Cobain e o Nirvana era bastante evidente.

E uma das melhores provas disso é “About a Girl”, faixa de Bleach que chamou a atenção do produtor Butch Vig.

Vig contou que, inicialmente, não ficou particularmente impressionado com o primeiro álbum do Nirvana. Mas uma música específica fez suas antenas levantarem.

Segundo o produtor, “About a Girl” mostrava um lado muito mais melódico e pop de Cobain, com melodia, letra e progressão de acordes que lembravam diretamente os Beatles.

A avaliação de Vig ajudaria a explicar o caminho que o Nirvana seguiria pouco depois: músicas pesadas, sim, mas acompanhadas de melodias extremamente fortes e acessíveis.

E isso seria fundamental para o sucesso de Nevermind.

Cobain escreveu “About a Girl” ouvindo Beatles

O próprio Kurt Cobain contou que escreveu “About a Girl” depois de passar uma tarde inteira ouvindo Meet The Beatles!, segundo álbum dos Beatles lançado nos Estados Unidos.

A influência não ficou exatamente escondida debaixo do tapete.

A faixa reproduzia elementos da progressão de acordes e do estilo melódico do pop dos anos 1960, mostrando um Cobain muito mais interessado em composição pop do que o estereótipo de líder grunge poderia sugerir.

E foi justamente esse contraste que ajudou a transformar o Nirvana em algo muito maior do que apenas uma banda de rock pesado de Seattle.

Até John Lennon entrou no estúdio de “Nevermind”

A influência de John Lennon também apareceu de forma bastante direta durante a gravação de Nevermind.

Butch Vig incentivou Cobain a gravar os vocais em duas pistas em músicas como “Smells Like Teen Spirit”, uma técnica bastante utilizada por Lennon.

O problema? Cobain não estava exatamente empolgado com a ideia de transformar o disco em uma produção gigantesca.

Vig explicou anos depois que tentava convencer o vocalista de que o objetivo não era simplesmente reproduzir no estúdio aquilo que o Nirvana fazia ao vivo.

A ideia era fazer o álbum soar grandioso, amplo e poderoso, com uma produção capaz de disputar espaço com qualquer coisa tocando nas rádios.

Cobain, inicialmente, não queria muito saber disso.

Mas Vig encontrou a senha secreta.

Quando chegou a hora de dobrar os vocais da primeira música, o produtor apelou:

“Você deveria dobrar os seus vocais. John Lennon fazia isso em tudo.”

Como Cobain adorava Lennon, a estratégia funcionou.

A resposta foi basicamente:

“Ok, Butch.”

E pronto. Lennon desbloqueou o modo estúdio.

A ironia: Cobain acabou gravando músicas de McCartney

Agora vem a parte que parece ter sido escrita por um roteirista com senso de humor.

Apesar de toda a antipatia declarada por Paul McCartney, as únicas gravações conhecidas de Kurt Cobain interpretando músicas dos Beatles são justamente de composições creditadas a McCartney.

A primeira é praticamente uma relíquia de família.

Existe um vídeo de Cobain aos dois anos de idade cantando “Hey Jude”.

Mas a segunda gravação é ainda mais curiosa.

Durante a produção do documentário Kurt Cobain: Montage of Heck, o diretor Brett Morgen encontrou uma antiga fita cassete caseira com Cobain tocando uma versão acústica de “And I Love Her”.

E adivinhe quem escreveu a música?

Sim, Paul McCartney.

A balada foi composta pelo músico nos anos 1960 e acabou chegando às mãos — ou melhor, ao violão — de um dos maiores críticos de sua persona décadas depois.

No fim das contas, a história tem uma bela dose de ironia: Kurt Cobain podia implicar com Paul McCartney o quanto quisesse, mas sua própria música carregava fortes ecos dos Beatles — e até algumas das gravações de Cobain envolvendo a banda vieram de músicas de McCartney.

Rock é assim: às vezes você diz que não gosta do cara e termina tocando as músicas dele.

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