Para quem conheceu o The Strokes depois de “Is This It”, lançado em 2001, a explosão da banda pode parecer daquelas histórias em que um grupo aparece do nada, coloca três acordes na tomada e conquista o planeta.
Só que a realidade foi bem menos instantânea — e muito mais barulhenta.
Antes de virar referência mundial, o grupo passou cerca de dois anos tocando em clubes pequenos de Nova York, ensaiando sem parar e tentando conquistar espaço em uma cena que já estava movimentada.

Imagem: AP
Dos ensaios no porão aos pequenos clubes
Os Strokes começaram a levar os ensaios mais a sério no final dos anos 1990. Um dos locais utilizados pela banda era o Music Building, em Manhattan, espaço conhecido por receber músicos e grupos em busca de um lugar para tocar e desenvolver suas ideias.
O primeiro show oficialmente realizado como The Strokes aconteceu em setembro de 1999, no clube The Spiral.
Depois disso, a banda mergulhou de cabeça no circuito de casas menores da cidade, passando por lugares como Luna Lounge, HiFi Bar e Mercury Lounge.
Nada de arenas lotadas, milhares de celulares apontados para o palco ou fã disputando ingresso na fila virtual. Em determinada fase, os Strokes tocavam para algumas dezenas de pessoas.
Mas foi justamente nesse ambiente que a identidade da banda começou a ganhar forma.
O Mercury Lounge virou peça-chave
Entre os lugares importantes nessa trajetória estava o Mercury Lounge.
Foi ali que Ryan Gentles, responsável pelo agendamento de shows da casa, começou a prestar atenção nos Strokes. O interesse foi tão grande que Gentles acabou se tornando empresário da banda.
Ele também ajudou a fazer com que as primeiras gravações do grupo chegassem até as gravadoras.
Em outras palavras: enquanto os Strokes estavam preocupados em tocar, ensaiar e sobreviver ao circuito de clubes, alguém já começava a perceber que havia alguma coisa diferente acontecendo.
Entra em cena Gordon Raphael
Outro nome decisivo nessa história foi o produtor Gordon Raphael.
Depois de assistir a uma apresentação dos Strokes no Luna Lounge, Raphael começou a trabalhar com o grupo.
As sessões realizadas no início dos anos 2000 dariam origem às músicas que posteriormente formariam a base de “Is This It”.
E a produção tinha uma missão bastante clara: deixar a banda soar como uma banda.
Menos produção, mais guitarra e sujeira
Na época, parte da música alternativa estava cada vez mais carregada de produção, camadas e recursos digitais.
A proposta de Raphael caminhava na direção oposta. A ideia era registrar os músicos de maneira mais direta e orgânica, com os integrantes tocando juntos e uma sonoridade menos polida.
O resultado ajudou a construir aquela estética seca, crua e imediatamente reconhecível que se tornou uma das marcas do The Strokes.
Era guitarra, bateria, baixo, vocal e atitude. Sem precisar colocar 47 camadas de efeitos para convencer alguém de que aquilo era rock.
“The Modern Age” abre a porta para o mundo
A primeira grande virada veio com “The Modern Age”, EP que chamou a atenção da gravadora britânica Rough Trade.
O selo lançou o material no Reino Unido e ajudou a transformar o burburinho da cena nova-iorquina em uma expectativa que começou a atravessar o Atlântico.
Pouco depois, os Strokes assinaram com a RCA.
A banda que até pouco tempo antes estava tocando em clubes pequenos agora começava a entrar no radar de uma indústria muito maior.
Quando “Is This It” chegou, a história já estava construída
Quando “Is This It” finalmente chegou às lojas em 2001, os Strokes já tinham conquistado uma reputação importante tanto em Nova York quanto no Reino Unido.
O álbum acabou se tornando um dos símbolos do retorno do interesse pelas guitarras e pelo rock de sonoridade mais enxuta no começo dos anos 2000.
A sensação de “banda nova que apareceu do nada”, portanto, era enganosa.
O mundo estava descobrindo os Strokes. Os Strokes, por outro lado, já vinham trabalhando havia anos.
Eles não inventaram a cena — mas viraram seu maior holofote
Existe uma diferença importante nessa história.
Os Strokes não criaram sozinhos uma nova cena de rock em Nova York. A cidade já tinha uma comunidade de bandas, músicos e artistas movimentando o circuito alternativo.
O próprio Grammy destaca que a cena de garage rock e rock alternativo nova-iorquina já estava se desenvolvendo antes da chegada dos Strokes.
O que a banda fez foi se transformar no principal ponto de atenção de um movimento que já estava acontecendo.
E isso não é pouca coisa.
A influência atravessou Nova York
Com o sucesso dos Strokes, outras bandas passaram a ser associadas à nova onda de interesse pelo rock de guitarra.
Nomes como Yeah Yeah Yeahs e Interpol ganharam espaço dentro desse contexto, embora cada grupo tivesse sua própria identidade, trajetória e sonoridade.
A influência dos Strokes também ultrapassou rapidamente as fronteiras de Nova York e ajudou a reacender o interesse internacional por bandas de guitarra em uma época dominada por diferentes tendências musicais.
A verdadeira história por trás do sucesso
Por isso, dizer que o The Strokes “salvou” ou “inventou” o rock de Nova York seria simplificar demais a história.
A trajetória é muito mais interessante.
O grupo passou anos ensaiando, tocando em clubes pequenos, construindo contatos e desenvolvendo uma identidade própria dentro de uma cena que já existia.
Depois, “Is This It” transformou aquele som de clubes apertados em um fenômeno mundial.
No fim das contas, o sucesso dos Strokes não caiu do céu. Antes de colocar o rock nova-iorquino de volta no centro das atenções, a banda precisou fazer aquilo que quase todo grupo aprende na marra: tocar para pouca gente, insistir, errar, melhorar e voltar para o palco no dia seguinte.
E, nesse caso, o pequeno palco acabou virando uma passagem direta para o mundo.



