David Bowie não era do tipo que ouvia sempre a mesma coisa. No início dos anos 2000, o lendário músico britânico tinha uma coleção de aproximadamente 2.500 discos. Durante uma conversa com a revista Vanity Fair, ele resolveu compartilhar uma seleção de seus álbuns favoritos, reunindo algumas das obras que considerava especiais na história da música.
A lista, repercutida pela Far Out Magazine, é tão eclética quanto a própria carreira de Bowie. Tem rock experimental, blues, soul, reggae, jazz, música eletrônica e música clássica. Ou seja: se você esperava encontrar apenas guitarras distorcidas e hinos do rock, prepare os ouvidos para algumas surpresas.
O próprio artista deixou claro que não existia uma fórmula para montar o ranking. “Não há como fazer uma lista racional dos meus álbuns favoritos. Eu só tenho cerca de 2.500 vinis”, comentou na época.
A seleção foi feita sem regras de cronologia, gênero ou qualquer outro critério fixo. Bowie simplesmente escolheu os discos conforme se lembrava deles.
E ainda mandou um recado aos curiosos que quisessem explorar suas recomendações: encontrar esses álbuns poderia garantir noites de puro prazer musical e até render novas amizades com gente de gosto refinado. Por outro lado, algumas escolhas seriam capazes de fazer os amigos antigos questionarem a sanidade musical do sujeito. Coisas de quem não tem medo de sair do óbvio!

Imagem: Reprodução
The Velvet Underground: o disco que mudou tudo para Bowie
Entre os títulos escolhidos está The Velvet Underground & Nico, clássico de 1967 do The Velvet Underground. Segundo Bowie, o álbum chegou às suas mãos por meio de Ken Pitt, seu ex-empresário, que também tinha investimentos ligados à banda.
Ao entregar o disco, Pitt teria dito: “Você gosta de coisas estranhas — veja o que acha disso”.
A resposta de Bowie foi definitiva: ele enxergou ali a melhor banda do mundo.
A admiração não ficou apenas na conversa. Quando seu grupo Buzz chegou ao fim, o músico exigiu que a faixa “I’m Waiting for the Man”, presente no álbum, fosse tocada no último show da banda.
Bowie também entrou para a história como o primeiro artista a gravar um cover do The Velvet Underground, reforçando a influência que o grupo exerceu sobre sua trajetória.
Confira a música no YouTube:
https://www.youtube.com/watch?v=XwgkhIkSZFo
John Lee Hooker também ajudou a moldar o caminho musical do Camaleão
Outra escolha importante foi Tupelo Blues, álbum de 1960 do bluesman John Lee Hooker. A história por trás desse disco começou antes de Bowie se dedicar integralmente à música.
Em 1963, ele trabalhava em uma agência de publicidade em Londres e conheceu Ian, seu chefe, que também era apaixonado por música.
De vez em quando, Ian enviava Bowie à loja de discos Dobell’s Jazz para buscar algumas encomendas. Em uma dessas ocasiões, pediu que ele trouxesse uma cópia de Tupelo Blues e recomendou que comprasse outra para si mesmo, porque o álbum era maravilhoso.
O conselho funcionou melhor do que qualquer campanha publicitária: Bowie ficou tão impressionado com o trabalho de Hooker que mudou o nome de seu pequeno grupo de R&B para Hooker Brothers.
A música “Tupelo” também entrou no repertório da banda. Antes mesmo de virar um dos maiores nomes da história do rock, o futuro Camaleão já estava absorvendo influências que ajudariam a construir sua identidade artística.
Confira a música no YouTube:
https://www.youtube.com/watch?v=6yyWvUTsBsE
Os 25 álbuns favoritos de David Bowie
A seleção reúne artistas consagrados, nomes experimentais e obras que passam longe das listas mais previsíveis. Confira os 25 discos escolhidos pelo músico:
- The Last Poets — The Last Poets
- Shipbuilding — Robert Wyatt
- The Fabulous Little Richard — Little Richard
- Music for 18 Musicians — Steve Reich
- The Velvet Underground & Nico — The Velvet Underground
- Tupelo Blues — John Lee Hooker
- Blues, Rags and Hollers — Koerner, Ray and Glover
- The Apollo Theatre Presents: In Person! The James Brown Show — James Brown
- Forces of Victory — Linton Kwesi Johnson
- The Red Flower of Tachai Blossoms Everywhere: Music Played on National Instruments — Various Artists
- Banana Moon — Daevid Allen
- Jacques Brel Is Alive and Well and Living in Paris — Cast Album
- The Electrosoniks: Electronic Music — Tom Dissevelt
- The 5000 Spirits of the Layers of the Onion — The Incredible String Band
- Ten Songs by Tucker Zimmerman — Tucker Zimmerman
- Four Last Songs (Strauss) — Gundula Janowitz
- The Ascension — Glenn Branca
- The Madcap Laughs — Syd Barrett
- Black Angels — George Crumb
- Funky Kingston — Toots & The Maytals
- Delusion of the Fury — Harry Partch
- Oh Yeah — Charles Mingus
- Le Sacre du Printemps — Igor Stravinsky
- The Fugs — The Fugs
- The Glory of the Human Voice — Florence Foster Jenkins
A seleção é um retrato de como David Bowie enxergava a música sem fronteiras. Do blues de John Lee Hooker às experiências sonoras de Glenn Branca, passando pela energia de James Brown e pela ousadia do Velvet Underground, os discos revelam um artista que nunca se contentou com o caminho mais fácil.
E aí, quantos desses álbuns você já ouviu? Se a lista do Camaleão serve como alguma coisa, é como um convite para sair da zona de conforto e descobrir sons que talvez nunca entrassem na sua playlist por conta própria.



