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Rock Geek: Pai do PlayStation entende revolta dos jogadores com o possível fim dos discos

Você compra um jogo, coloca na estante e sabe que ele está ali. Agora imagine depender de servidores, licenças e plataformas digitais para continuar acessando sua biblioteca. É justamente essa preocupação que está no centro do debate sobre o futuro dos videogames — e Ken Kutaragi, um dos principais responsáveis pela criação do PlayStation e ex-CEO da Sony, entende a frustração dos jogadores.

Em entrevista ao site VGC, o executivo afirmou que as empresas do setor precisam repensar sua relação com o mercado digital para preservar a confiança dos consumidores. Afinal, para muita gente, videogame não é apenas apertar um botão e começar a jogar: também envolve colecionar, guardar e ter a sensação de que aquele jogo realmente pertence a você.

IBAGEM PS6

Imagem: Divulgação/PlayStation

O problema dos jogos digitais: e se o acesso desaparecer?

Para Kutaragi, a mídia física continua ligada à sensação de propriedade que os jogadores desenvolvem em relação aos seus games. Com um disco ou cartucho em mãos, existe um objeto concreto na coleção, algo que não depende exclusivamente de uma conta ou de um serviço online.

O executivo reconhece, porém, que a fabricação de discos já não seria economicamente viável para o PlayStation nas condições atuais.

A questão é que a distribuição digital traz uma preocupação diferente: o consumidor nem sempre tem garantias de que continuará acessando o conteúdo comprado. Mudanças nos serviços, encerramento de plataformas e restrições de licenciamento podem afetar a disponibilidade de determinados jogos.

Kutaragi observa que essa relação com o digital não provoca necessariamente a mesma sensação no mercado de dispositivos móveis, onde os consumidores já estão acostumados a utilizar aplicativos e serviços sem depender de mídias físicas.

Nos consoles, entretanto, abandonar os discos não significa apenas trocar a embalagem pelo download. Para parte do público, a mudança mexe diretamente com a ideia de propriedade dos jogos.

PlayStation virou uma plataforma de conteúdo?

Na avaliação de Kutaragi, a resistência dos consumidores ao desaparecimento da mídia física também envolve uma diferença de mentalidade entre o público e as empresas responsáveis pelas plataformas.

O ex-executivo acredita que parte da atual liderança do PlayStation enxerga os consoles de maneira diferente daquela que marcou a história da marca. Em vez de priorizar os videogames, essa visão também considera os aparelhos plataformas para acessar diversos tipos de conteúdo digital.

Ele relaciona essa mudança à experiência profissional de pessoas que vieram de empresas ligadas ao streaming e a outras tecnologias de conectividade.

“No momento, a Sony Interactive Entertainment é formada por muitos que vieram de fora, como a Gaikai e companhias de streaming”, explicou Kutaragi. Segundo ele, essa trajetória ajuda a entender por que alguns executivos podem enxergar o PlayStation não apenas como um console de jogos, mas também como um terminal de conteúdo.

A preocupação é que essa visão entre em conflito com as expectativas de quem acompanha a marca há décadas. Para esses jogadores, o videogame continua sendo o protagonista — e não apenas mais uma caixa conectada à internet na sala de estar.

Consoles podem ficar caros demais para sobreviver?

Kutaragi também levantou uma questão ainda mais preocupante para o futuro da indústria: o aumento dos custos dos componentes eletrônicos.

Na visão do executivo, se os preços dos consoles continuarem subindo a ponto de se aproximarem dos valores de carros usados, o modelo tradicional de negócios pode perder sentido.

É um alerta sobre os desafios de fabricar equipamentos cada vez mais sofisticados e caros. Quanto maior o custo de produção, mais difícil pode ser oferecer aparelhos acessíveis ao público sem comprometer a rentabilidade das empresas.

Isso não significa que o fim dos consoles esteja definido, mas mostra como a indústria precisa equilibrar potência, preço e acesso aos jogos.

O jogador quer praticidade, mas também quer ter seus games

O debate sobre a mídia física vai muito além da nostalgia. O digital oferece conveniência, acesso rápido e dispensa a troca de discos. Já os formatos físicos atraem colecionadores e consumidores que valorizam a possibilidade de guardar, revender ou emprestar seus jogos, embora essas opções também dependam de restrições específicas de cada título.

A fala de Ken Kutaragi coloca em evidência um dilema importante para o futuro dos videogames: como avançar tecnologicamente sem deixar para trás aquilo que os jogadores consideram essencial?

Porque, convenhamos, baixar um jogo em segundos é ótimo. Mas descobrir que aquele título comprado pode deixar de estar disponível é um game over que ninguém quer enfrentar.